Perigos do Vale Nentir

a Caçada

O encontro com o Espírito Guardião

O véu da escuridão havia sido jogado por cima da floresta. Era noite. Lobo da Noite estava à espreita na floresta. A fome o revirava por dentro, atormentando, o movendo em busca de alimento. Alimento de verdade, não os vaga-lumes que estavam espalhados entre as árvores. Não os pequenos roedores que aproveitavam o escuro para seus afazeres.

Era fome por uma caça de verdade. Um animal maior, que desse gosto, que valesse a pena.

Lobo da Noite para por uns instantes, em completo silêncio. Seu faro, aguçado, absorvia todos os sabores da mata. Desde o cheiro de ervas medicinais, aos cogumelos venenosos, as copas das árvores que perdiam suas folhas à medida que a estação avançava. Faria frio em breve. Até que um dos odores o chama a atenção. Sua boca saliva compulsivamente. Era um cervo.

Com o silêncio de um caçador nato, Lobo da Noite atravessa o chão da floresta em absoluto silêncio, passando por arbustos contornando árvores da melhor maneira que podia, e podia. A intensidade do cheiro indicava a proximidade cada vez maior de sua futura refeição.

E então ele o vê.

A ansiedade quase fez com que Lobo da Noite estragasse tudo, se precipitando. Mas a calma do predador era mais forte, e ele analisou os arredores. O cervo aparentemente estava fazendo uma última refeição antes de se juntar ao bando. As árvores eram levemente espaçadas, mas alguns galhos eram traiçoeiros. A clareira não era muito espaçosa. Perto havia uma ribanceira por onde o cervo não poderia passar. A Caçada estava pronta. Mas algo havia sido deixado de lado. E não foi o fato de Lobo da Noite ter alertado a presa antes da hora.

Sim, o cervo soube soube alguns milésimos de segundos antes que estava em perigo. Sem perceber, Lobo da Noite, ao estar tanto tempo faminto, deixou que sua língua passasse por cima dos lábios, fazendo o barulho necessário para revela-lo. O cervo levanta a cabeça, alerta. Olha um pouco para os lados, mas não vê Lobo. O fator surpresa já havia sido perdido, mas o caçador estava confiante. Confiante de que mesmo com esse problema, seria capaz de sobrepujar a presa caso a capturasse.

Caso a capturasse. Esse foi o ponto chave que trouxe tudo por água abaixo.

Lobo da Noite retesou os músculos e avançou no cervo. Avançou com tamanha ferocidade que mesmo os olhos mais afiados teriam dificuldade de acompanhar sua trajetória. A força da fome o impulsionava, o direcionava ao pescoço do cervo. O caçador fecha a mandíbula e as garras.

Quando as abre, nada.

O cervo foi mais rápido, e começou a corrida.

Com a corrida, a perseguição.

Lobo da Noite estava certo de que alcançaria o cervo, afinal, mesmo com a forte apertando sua mente, ele havia analisado o lugar da melhor maneira que podia. Mas a fome era traiçoeira, e fez com que ele não percebesse algo. As capacidades do próprio cervo.

De pouco em pouco, metro em metro, o cervo ganhava distância. Não importava o quanto Lobo da Noite conhecesse a floresta, não importava o quanto sua fome o impulsionava para a frente, a caça se afastava mais e mais. E então o desespero se apossou do caçador. Ele não conseguiria capturar a presa.

Esse fato mergulhou Lobo da Noite em um completo desolamento. Um suor frio começou a despontar de si, sua respiração ofegante deixando baforadas de vapor em uma floresta fria. O cervo escapa.

Lobo da Noite olhou ao redor, desesperado. Ele SABIA que aquela era a única chance de poder se alimentar naquela noite. Sabia que no dia seguinte estaria faminto DEMAIS, que as chances de conseguir sobreviver estavam diminuindo rapidamente. Descobriu que estava de volta à lareira.

Se encostando em uma árvore, deixa o peso do corpo leva-lo ao chão. Senta na relva macia, camadas e mais camadas de folhas que cobriam o chão com um verdejar que com certeza seria muito bonito de se ver à luz do sol – a luz que Lobo da Noite menos queria ver, pois provavelmente significaria que iria perecer.

Seus batimentos cardíacos não desaceleram. A fome não deixava. Estava nervoso, alterado, raiva começava a subir, se acumulando no peito e apertando como uma mão fantasmagórica – a mesma mão que apertava seu estômago e o lembrava da fome. Mas como ? Como ele deixou-se chegar a esse estado ? Por que não caçou antes, por que não se alimentou em algum momento ? Por que estava com tanta fome agora ? As dúvidas rapidamente se esvaem quando Lobo da Noite vê Lobo da noite.

Lobo se aproximou, vindo dos confins da floresta. Lobo da Noite não conhecia aquele Lobo. Sua fome não permitia. Será que o caçador agora seria caçado ? Não. Não iria se permitir ser caçado sem ao menor lutar contra isso. Lobo da Noite tentou se levantar, mas uma calmaria se apossa de seu corpo. Não é que não tinha forças para isso. É como se ele soubesse que não importava. Não porque era perigoso. Não importava.

Lobo da noite se aproxima, indo em direção ao centro da clareira, olhando para cima. Lobo da Noite acompanha o olhar. Lá em cima, as copas das árvores não se fechavam como um telhado verdejante. O cobertor de folhas tinham uma grande falha, um grande buraco devido à clareira. E através dessa passagem, era possível ver o céu. O véu das estrelas estava espesso. Infinitos pontilhados cobriam toda a arcada acima deles, cada um deles uma fonte de luz, de sonhos, de mitos, de informação, de beleza, de solidão e de acolhimento. Algumas culturas dizem que as estrelas eram grandes seres que haviam perecido e foram marcados para sempre no manto da noite. Outros dizem que a disposição delas prevê acontecimentos, e até mesmo como será alguém que nasceu em determinada estação.

Mas isso não importava naquele momento. O que importava é que, mesmo a fome presente, vazia, Lobo da Noite não estava mais preocupado com ela. Estava serene, mas não sabia o porquê. O Lobo olha novamente para Lobo, e se aproxima. Para em sua frente, de lado. Seu olhar possuía algo de familiar, algo que Lobo já havia visto antes. Quando achava que estava na ponta da língua, a lembrança lhe escapava novamente da mente. O Lobo faz um gesto imperceptível, mas que Lobo entendeu como “siga-me”.

Os dois foram caminhando pela floresta. Cada leve tropeção, cada arranhão novo em seu rosto lembrava Lobo da Noite de sua fome, que agora voltava à ativa, o corroendo por dentro. Por que estava perdendo tempo seguindo um lobo ? Precisava encontrar caça, precisava comer, se saciar, sobreviver ! Chegaram em uma nova clareira. Esse lugar era familiar, pensou Lobo. Um leve esforço em suas memórias e ele lembra. Não era uma clareira. Era uma praça que ficava no centro de Entrepontes. O lugar estava vazio. As casas, envelhecidas como se ninguém morasse naquela cidade há anos. As plantas haviam tomado conta da arquitetura do lugar. A cidade possuía uma murada de madeira e torres de vigilância, com pontes de madeira ligando alguns pontos altos da cidade para facilitar o trânsito de arqueiros. O chão estava seco, assim como o ar, que arranhava os pulmões de Lobo da Noite cada vez que ele inspirava.

Lobo da noite não estava mais lá. Lobo sente um calafrio percorrer seu corpo, dos pés até a nuca. Havia algo naquele lugar. Algo perigoso, Lobo sabia. Um outro predador ? Do canto de seu olho, Lobo percebe um movimento. Estava temeroso, mas se atentou ao local. Era . . . Lobo ? Mas era um Lobo maior, mais feroz. Lobo da Noite estava um pouco assustado, até esquecendo de sua fome por alguns breves instantes. Lobo da noite se aproximou, ameaçador, e deu a volta ao redor de Lobo da Noite, que fechou os olhos. E quando abriu os olhos, estava em outro lugar.

Dessa vez estava em um lugar frio. O vento gelado do norte soprava ruidosamente, não permitindo que Lobo da Noite ouvisse nem mesmo seus próprios pensamentos. Seus membros tremiam, afogando a dor da fome embaixo de um manto de gelo. Era possível ver umas formas estranhas por trás do manto da neve, mas o vento aumentou tanto de intensidade que Lobo da Noite acreditou que fosse ser enterrado pela fúria da geleira. Mas então, tudo ficou claro e a neve cessou. Ele estava em frente à uma coluna de luz. Ao lado dela, um espelho quebrado, seus cacos certamente enterrados pela grossa camada de neve que permeava o lugar. Ao longe, alguns iglus de gelo destruídos. O céu estava completamente nublado, e parado, como se o próprio tempo houvesse sido interrompido. Lobo da Noite procura por Lobo da noite, e quando o vê, percebe que estava ainda maior. Estava de sua altura ! Lobo da Noite engole em seco, sem ter certeza do que pensar ou agir. Lobo da noite começa a avançar em sua direção, aumentando o ritmo da corrida até que salta no ar, mandíbulas abertas e apontadas em sua direção. Lobo da Noite fecha os olhos, e quando os abre, estava em outro lugar.

Agora, se encontrava no meio de uma . . . Vila nevada. Mas era uma vila estranha. Possuía umas ocas que eram grandes demais para humanos. Muitas delas estavam queimados, e a paliçada que antes protegia o local parecia haver sido trazida abaixo há muitas semanas. Sinais de um conflito, uma guerra, estavam espalhados por todo o local. Havia sangue seco incrustado nos destroços. O céu estava limpo, mas com pouquíssimas estrelas. Dessa vez, uma visão aterrorizou Lobo da Noite. Do lado de fora havia uma massa peluda, muito maior que a paliçada que protegia o lugar. O chacoalhou os pelos e levantou, muito maior do que uma casa comum. Lobo da Noite dá alguns passos para trás, percebendo que ali estava Lobo da noite, em um tamanho absurdo. O lobo começa a caminhar ao redor da vila e acelerar, até correr. Sua velocidade era tamanha, e o barulho de suas patas titânicas no chão era quase um terremoto aos olhos de Lobo da Noite.

A fome que outrora revirava seus interiores foi completamente esquecida. Tudo o que ele sentia agora era terror, diante de tamanha besta. Sua vontade era de fugir, mas fugir para onde ? De se encolher, mas isso não o salvaria. De chamar os seus companheiros. Algo parece ter encaixado na cabeça de Lobo da Noite. Ele sente, no fundo de sua alma, que ele não deveria estar ali – ele precisava estar, precisava DE seus companheiros, e eles, dele. Todos eram eles mesmos, claro, mas também era um só. Lobo da Noite não estava mais com medo. O animal que rodeava a vila estava tão veloz que era quase um borrão. Lobo da Noite sabia que iria ser atacado, ele sentia dentro de si. Seus olhos se aguçaram, sua postura mudou. Sentiu a energia da floresta percorrendo por baixo da neve, sendo absorvida pelos seus pés e subindo pelo seu corpo como um soro que o enchia de potencial. Olhou novamente para o borrão que circulava a vila. Sentiu que agora estava mais veloz, mais capaz. Suas mãos começaram a gesticular em formas arcanas antigas. De seus lábios, palavras que somente outros de seu tipo conseguiriam decifrar. De nenhum lugar, mas ao mesmo tempo, de todos os lugares, espíritos de criaturas começavam a farfalhar ao seu redor. Borboletas, pássaros, vaga-lumes. Lobo da Noite põe a mão na cintura. Lá estava sua arma. A empunhando, ele a aponta para o céu. As criaturas vão em direção ao objeto, e se fundem.

Shillelagh.

Lobo da Noite prepara sua ação. Quando Lobo da noite atacasse, ele iria contra-atacar e sair da frente. Não importava se errasse ou acertasse o ataque – ele tinha a certeza que agora era ágil o suficiente. O suficiente para conseguir fazer o que queria.

Lobo da noite fez a curva, entrou em altíssima velocidade na vila, avançando na direção de Lobo da Noite.

Lobo da Noite desfere o golpe.

Certeiro.

A grande besta se desfaz em uma nuvem de animais diversos. Alguns deles saem voando, outros saem rastejando, outros saem correndo de volta pra floresta. Olhando para trás, Lobo da Noite vê Lobo da noite. Estava do tamanho normal, e se aproximava, despreocupadamente – teve a impressão de que o lobo estava até saltitando de felicidade. Lobo da noite sentiu a fome apertar, mas dessa vez não se importou. Se ajoelhando, espera Lobo da noite chegar. O lobo chega perto e o olha fixamente. Teve até a impressão de que a besta estava sorrindo. E de repente, ganhou uma lambida no rosto.

Lobo da Noite abre os olhos. Estava em uma clareira. Nessa clareira havia caça. O cervo aparentemente estava fazendo uma última refeição antes de se juntar ao bando. As árvores eram levemente espaçadas, mas alguns galhos eram traiçoeiros. A clareira não era muito espaçosa. Perto havia uma ribanceira por onde o cervo não poderia passar. A Caçada estava pronta.

E a Caçada começou. O cervo percebeu o avanço, mas dessa vez Lobo da Noite não se abalou. Estava tranquilo, estava sereno. Nem seu fracasso anterior nem sua fome iriam atrapalha-lo dessa vez. Perseguiu o cervo de maneira calculada. Tangeu a criatura pelo caminho que ele queria que ela seguisse. O cervo se enganchou em galhos e, no desespero, não percebeu que havia chegado em uma ribanceira. Não havia escapatória. E quando o cervo olhou para trás, para o caçador avançando em sua direção, isso ficou claro em sua expressão. Dessa vez, era uma presa. Lobo da Noite avança, veloz, e dá o bote.

A Caçada havia terminado.

Lobo da Noite se tornou, então, Lobo, da noite.

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SeanWishart

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